| O edifício A. Afonso Bastos, antigo Palacete Júlio Viana, construído no final da década de 1920, presente na esquina das ruas Quinze de Novembro e Augusto Severo, tinha como proprietário a Província Carmelitana Fluminense, entidade ligada à Ordem Carmelita de Santos, antiga proprietária desses terrenos.
Obra que certamente visava dar respostas às demandas comerciais e de negócios crescente na região, ao mesmo que se prestava como resposta às necessidades financeiras da entidade.
Na primeira metade do século XX, Santos era uma das mais ricas cidades do país em decorrência de seu porto, o principal pólo exportador de café do mundo. Nesses termos, o capital estrangeiro investiu na criação de empresas de serviços públicos e de transportes coletivos, negócios que foram transformando, paulatinamente, o antigo cenário urbano de Santos em uma cidade próspera e moderna. A relação direta entre a ferrovia e o porto reforçava, entre os negociantes de café, a opção pelas áreas circunvizinhas dos bairros do Valongo e Centro como melhor ponto de negócios da cidade.
Além de consolidar a nova vocação local, os investimentos ali concentrados proporcionavam grande valorização do solo urbano ante as demais regiões da cidade. Nesse contexto, a Rua Quinze de Novembro passou a ter posição urbana privilegiada. O antigo caminho da fé que comunicava as igrejas de Santos e atraia procissões, foi convertido em espaço onde o capital cafeeiro determinava os novos rituais urbanos, transformando os antigos casarões coloniais em modernas sedes de instituições financeiras.
Em pouco tempo, consolidou-se como eixo vital para os negócios da cidade. Local adensado por casas comissárias e bancos, que rivalizavam em atenção com a Associação Comercial, a Bolsa de Valores e a Bolsa Oficial de Café, tendência que certamente influenciou diretamente os carmelitas na decisão de construir o novo edifício nesse importante contexto urbano de Santos.
A construção do edifício de 5 pavimentos ocorreu na fração do terreno que restou da construção do edifício dos Correios e Telégrafos da Praça Mauá, que anteriormente alcançava a Rua Cidade de Toledo, ocupando o ponto de antiga chapelaria.
Por volta dos anos de 1930 o antigo Palacete Júlio Viana abrigou a sede da Blue Star Line, conhecida empresa de navegação que operava na cidade desde 1925, ano em que trouxe 5 navios de passageiros ao porto de Santos, a exemplo do Ávila Star abatido posteriormente durante a Segunda Grande Guerra (Giraud, 2001, p.32).
Entretanto o edifício pertencente a Província Carmelitana Fluminense notabilizou-se pela vocação comercial de seus espaços, sobretudo dos pavimentos superiores, ocupados ao longo das décadas por inúmeros escritórios que acarretou em sucessivas reformas e iniciou um processo de descaracterização do edifício como todo. Nas décadas de 1950 e 1960, por exemplo, várias solicitações de demolição e reforma deram entrada na prefeitura para readequação das novas demandas de uso. Em 1943, são realizadas alterações na planta do último pavimento com a vedação das envasaduras da fachada voltada para a Rua Augusto Severo (proc. nº 9.717-43). Após oito anos, em 1951, a construtora Domingues Pinto, Passarelli & Merlin Ltda., empresa com sede no Palacete Viana, concluiu em 22 de agosto a de demolição da cúpula que coroava a esquina, seguido da construção de uma laje e platibanda (proc. nº 4.160/51), em decorrência talvez de problemas estruturais, prática que estava em voga na época levando vários edifícios do centro a incorrerem na mesma atitude. Dessas ações demolitórias se salvaram apenas as cúpulas da Bolsa Oficial de Café e do Correios e Telégrafos, curiosamente edifícios públicos.
Na década de 1960, o imóvel foi adquirido pelo Banco Faro S/A, estabelecimento fundado pelo português Alexandre de Mello e Faro, que manteve nesse local a filial de seus negócios, durante muitos anos.
A sede matriz do Banco Faro, presente na Rua Quinze de Novembro, 70, desde as primeiras décadas do século XX, se juntava a inúmeras outras instituições instaladas nessa via como o Banco de Portugal, o Banco Italiano di Sconto, o Banco do Canadá, o CityBank, a Caixa Econômica, o London Bank, o Banco de Comércio e Indústria, a Associação Comercial, a Bolsa Oficial de Café, negócios que consolidavam a vocação do lugar como principal centro financeiro da cidade.
A aquisição do Palacete Viana junto aos carmelitas fazia parte das aspirações do Banco para a expansão dos serviços na região, focado na demolição do imóvel para a construção de um grande edifício comercial com 11 andares, que entretanto nunca se efetivou (proc. 13.640/64; 15.270/64; 7.323/66).
Com a permanência do imóvel, suas dependências continuaram a abrigar múltiplas funções. Por anos serviu às instalações do Consulado Português em Santos, até sua mudança na década de 1990 para a Rua D. Pedro II. Também foi endereço da Casa Faro, uma das tradicionais agências de turismo da cidade, já não mais existente, que funcionava no térreo, junto a esquina.
Em 1980, como parte de pagamento de dívida, o Banco Faro, entregou o edifício à Barra da Tijuca – Imobiliária S/A, corretora de imóveis sediada na cidade do Rio de Janeiro (1º Cartório de Registro de Imóveis, R.1/ 26.096). Anos depois, o imóvel ainda de propriedade da Imobiliária solicitou à Prefeitura Municipal a aprovação de reformas unicamente focadas na parte interna, segundo constava o memorial descritivo apresentado (proc nº 16.072/85), que também incluía a cobertura com a substituição de telhas quebradas e do madeiramento comprometido. Segundo a descriminação de serviços, as fachadas seriam conservadas limitando-se apenas na execução de limpeza das paredes e pintura das esquadrias. No pavimento tipo seriam construídos 2 conjuntos de sanitários duplos seguido da demolição de algumas paredes para a criação de 2 salões para escritórios. Os serviços de reforma no pavimento térreo estavam concentrados também na execução de 2 conjuntos sanitários duplos além da feitura de 2 mezaninos com entrada privativa.
Novas alterações internas ocorrem em 1990, reformas praticamente direcionadas ao pavimento térreo, sem repercussão significativa para a fachada, quando o imóvel passou a propriedade de Ruy Alexandre de Mello e Faro e sua esposa Sônia Maria Rocha Leite de Mello e Faro. Ruy de Mello e Faro foi um dos diretores do extinto Banco Faro, fundado por seu pai. Durante o período em que esteve à frente do Banco, Mello e Faro notabilizou-se pelas ações beneméritas junto à comunidade lusitana da cidade, prestigiando várias promoções da UNELUS – União das Entidades Lusíadas de Santos (Carvalho & Guerreiro, 1971, p.113).
Assim, passados um breve período de posse da imobiliária Barra da Tijuca, o imóvel voltou às mãos da família Faro, que não tardou muito a transferir sua propriedade a terceiros. Em 1992, foi adquirido pelos atuais proprietários o engenheiro Aristides Lança Afonso Bastos, sua mulher Maria José e o filho André, família domiciliada em Lisboa, Portugal, que apesar de alterarem a denominação do antigo Palacete Júlio Viana, manteve a vocação tradicional como ponto de comércio e negócios da cidade.
Bibliografia
ÁLBUM DA COLÔNIA PORTUGUÊSA NO BRASIL EM 1929. Rio de Janeiro: 1929.
CARVALHO, Maria Regina G. e GUERREIRO, Jorge. Presença Portuguesa no Brasil. Santos: Edições Notícias de Portugal, 1971.
Análise Arquitetônica
Situada na esquina das ruas Quinze de Novembro e Augusto Severo, no centro de Santos, o edifício A. Afonso Bastos, antigo Palacete Júlio Viana, é parte integrante do conjunto arquitetônico da região central preservado pelo CONDEPASA – Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos, constituídos por edificações de momentos históricos diversos e representativos dos variados assentamentos que caracteriza a paisagem do lugar que se insere.
Conhecido como um dos mais antigos e tradicionais logradouros de Santos, a Quinze de Novembro foi por muito tempo a principal rua da cidade. Posicionada na região central, é potencialmente um local de paragem obrigatória de pedestres e turistas, em face do significativo patrimônio cultural que paulatinamente vem sendo recuperado. Em outras épocas recebeu diferentes nomes como: Direita, Antonina e 25 de Março, ganhando a denominação atual após a implantação da República no país. Foi área residencial de gente importante como a família Andrada e seu mais ilustre filho, José Bonifácio. Até o final do século XIX, a Rua Quinze de Novembro assumiu posição como área de negócios, alinhando um grande número de estabelecimentos comerciais, bancários e de corretagem de café. Vocação que lhe valeu, certa época, o apelido de “Wall Street Santista”, definição emblemática devido à grande importância econômica que a cidade assumia para o país.
O antigo Palacete Viana materializa essa primeira fase de pujança econômica que caracterizou a arquitetura da cidade antes da crise financeira de 1929 gerada pela quebra da Bolsa de Nova York.
A obra teve início no final da década de 1920, seguindo as referências formais de um ecletismo tardio, despojado de ornamentação prenunciando as linhas racionalistas que entraria em voga na arquitetura brasileira anos mais tarde. Trata-se de um repertório estilístico recorrente das décadas de 1920 a 1940, quando os avanços da tecnologia na construção civil, sobretudo da adoção da estrutura de concreto armado preconizando os princípios da racionalização na execução da obra, entravam em conflito com a manutenção de formas ainda artesanais dos acabamentos de gosto classicizante. Na cidade de Santos inúmeras edificações desse período exemplificam a presença dessa arquitetura híbrida, que se integrava ao cenário ecletista dos arredores e ao mesmo tempo se apresentava com linguagem estilística renovadora.
A edificação em cinco pavimentos foi concebida para servir a um programa de necessidades específico à demanda de serviços ligados ao ramo portuário e do café, segundo a vocação da grande maioria das edificações presentes na Rua Quinze de Novembro. Com isso, as exigências do programa permitiram certa solução espacial recorrente na planta tipo, alinhando os escritórios de maneira longitudinal, interligados por corredor central, totalizando uma área construída de 1.739,04 m2, aproximadamente. O térreo estava voltado para receber lojas comerciais que, no entanto foi sendo locado para empresasligadas ao ramo da navegação e posteriormente se transformou em ponto tradicional para agências de viagens.
Os acessos são independentes, isolando o térreo dos demais pavimentos cuja circulação vertical tem ligação pela acanhada entrada da Rua Quinze de Novembro.
A implantação do edifício no lote segue a forma tradicional de ocupação recorrente no passado colonial, isto é, junto aos limites frontais e laterais do terreno, que concentra na face interna os afastamentos necessários para responder as necessidades de iluminação e ventilação natural aos ambientes.
Na execução da obra, particularmente da fachada, observa-se uma atitude pragmática e econômica dos construtores no que se refere às despesas excessivas com os acabamentos diante da adoção de materiais recorrentes na construção civil que permitissem atender essa praticidade. Erguido através de uma estrutura de concreto armado e paredes de alvenaria de tijolos, o revestimento externo foi tratado com argamassa raspada, bastante usual na época, que oferecia a baixo custo acabamento similar ao granito na textura e coloração final. As esquadrias foram executadas em madeira, recoberta originalmente com camadas de tinta a óleo. Nas portas balcão, no segundo e terceiro pavimento, vem acompanhadas de guarda-corpo em ferro, com referência ao secession vienense. O telhado em estrutura de madeira foi revestido com telhas de barro do tipo marselha comum aos edifícios do ecletismo.
O exame das características externas do Edifício A. Afonso Bastos comprova a filiação com o ecletismo recorrente da justaposição de repertório estilístico de diferentes origens que se opunha ao rigor acadêmico preconizado pela Beaux-Arts, comum aos grandes edifícios desse período. Na composição da fachada nota-se a ausência de simetria, embora ocorra certa modulação organizada pelas pilastras sustentadas por modilhão, seguindo a maneira de Michelangelo na Biblioteca Laurenziana, de Florença. No térreo essas pilastras assumem um tratamento com frisos lembrando embasamento rústico, que por sua vez são interrompidos pela arquitrave contínua que oferece aos olhos um sentido de ruptura e apoio da arquitetura situada acima. Elementos formais e decorativos que oferecem à fachada um sistema homogêneo de relevos com resultado plástico satisfatório, em que os elementos verticais ( pilastras ) e horizontais ( arquitrave ) do repertório clássico vigente constróem eixos compositivos equilibrados.
O posicionamento na esquina solicitou uma composição que valorizasse essa perspectiva como eixo dominante, coroando o topo do edifício por meio de elevado torreão com cúpula, demolida tempos depois. O rigor da simetria acadêmica é tratado com despojamento na medida em que os acessos não se prendem ao eixo central, orientados mais para atender às questões funcionais que valorizar a monumentalidade do conjunto.
GIRAUD, Laire. Transatlânticos de Santos. 2001.
PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTOS. Processo nº 16.072, 25/jun/1985.
PRIMEIRO CARTÓRIO DE REGISTRO DE IMÓVEIS. Livro nº 2 – Registro Geral, Matrícula nº 26.096.
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